18.12.09

Eu detestava a palavra amor

Tivemos que voltar mais cedo da praia porque minha tia era aleijada e não gostava de sol. Como a garagem era estreita e a cadeira de rodas não ia caber montada na lateral, meu tio subiu na calçada e levantou o pino para abrir o porta-malas. A operação ainda ia levar algum tempo, porque as molas da cadeira andavam travando e segundo essa tia a “maresia horrorosa” também havia derrubado a sua pressão, o que a tornava ainda mais lenta. De maneira que quando ouvi o barulho da mobilete soube que tinha poucas chances de escapar. Meu primo desceu do carro e começou a lutar contra a cadeira, que não quis abrir. O outro primo, que veio comigo no banco de trás, já estava com a minha tia no colo quando a mobilete estacionou bem perto do portão. Ela gritou “ai meu deus do céu”, e a vizinha que tinha vindo ajudar se assustou também. O Juliano tirou o capacete e pediu desculpas, mas ninguém respondeu. Ele disse: “Chega aê” e me estendeu um pacote que tirou de dentro da bermuda. Desci do carro. Era um envelope branco com bordas da cor do Brasil, e ele só disse “depois você lê”, o que era óbvio, já que eu tinha que ajudar a abrir o portão de pedestre pra minha tia subir a rampa. A mobilete foi embora, eu travei o cadeado. Meu tio foi tirar o carro da calçada, um primo foi prender os cachorros enquanto o outro abria a casa. A tia assumiu a própria cadeira. Apalpei o pacote: devia ter mais de cinco páginas de sulfite dobradas em quatro, porque não consegui amassar tudo de uma vez. Tive que desdobrar algumas e bati o olho num “apaixonado por você”. Que ódio. Rasguei o resto, joguei no lixinho que ficava pendurado na alça da cadeira da minha tia, que peguei no meio do caminho, emperrada num desnível, dizendo “é essa maresia que vai acabar comigo".

Relógio

Como é triste balanço, cadeira de balanço, pneu pendurado. Se estiver chovendo, pior. Mais triste quando tem galinha perto, e cavalo de passeio. Que coisa, eu pensei hoje no parque da Água Branca, cheio de balanças: todo mundo foi feliz numa dessa. Aquelas fotos no brinquedão de Poços de Caldas, dando gargalhada. Mas hoje, nossa, eu acho muito triste. Não de filme de terror, medo; é triste que nem um relógio que contasse em anos. Não sei se é por isso que é triste, ou se porque constroem a balança sempre longe dos outros.

15.12.09

Muita sorte

Me lembro que na primeira manhã em Buenos Aires senti muito frio na cabeça (molhada) e pensei: aqui o vento é gelado mesmo. Era abril, eu estava sozinha na rua e não queria tomar café da manhã em nenhum estabelecimento que fosse para turistas, o que na Recoleta não parecia fácil. Uma mulher que passeava com o cachorro compreendeu a pergunta e explicou como chegar no restaurante "típico das famílias do bairro". Mas eu não compreendi as indicações e me perdi. Muita sorte, pensei, em São Paulo eu nunca me perco, e se acontece é dentro do carro. Em Buenos Aires deu certo. Fui parar em frente a uma Giorgio Armani, ao lado de um café fechado. Era domingo, e não tinha ninguém por perto. Acendi um cigarro e reparei que o asfalto era mais cinza que o de casa e que o sol parecia antigo no reflexo de uma janela cor-de-rosa onde por trás não passava ninguém. É o que lembro de lá. Estranhar uma esquina, apagar o cigarro e continuar caminhando numa direção ignorada, que depois descobriria ser a de um museu espetado no mapa turístico a quatro quadras do hotel. Hoje tudo isso se apresentou outra vez, numa dose menor de estranheza, claro – porque em Perdizes todo mundo fala português. Mas pelo menos pude me perder durante uma hora buscando uma esquina da Traipu.

11.12.09

My name is Luka

Agora vivo em apartamento.

Sem internet.

Mais apartamento que móvel, de longe.

Rodrigo explica alguma coisa sobre melões. Que “os completamente perfeitos vão pra Europa”.

Comecei trabalho voluntário: agora passeio com uns cachorros.

No Itaú aí de cima encontrei um menino de 14 anos que eu já conhecia de algum lugar.

Voltando a morar em Perdizes 23 anos depois, percebo como a frase “nasci nesse lugar” não quer dizer muita coisa.

Sem telefone.

Quem tá fora consegue ver alguma coisa do lado de dentro do olho mágico?

“Não sei voltar sozinho! Meu lugar é na garagem.

Sem telefone de pizza.

“Sem que nada mais seja preciso acrescentar, saudações.”

A moça da faxina assumiu a portaria.

9.12.09

Não me repreenda

5.12.09

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Nessa edição da revista, outra esquina minha. Agora, ao invés de mongas, falei com o estilista libanês de 70 anos que acaba de estrear nos palcos como humorista. Com vocês, monsieur Jacques Lelong.


Da pantalona à piada
Um costureiro prova que os astros tinham razão

No último dia 15, um domingo de chuva em São Paulo, o estilista libanês Jacques Lelong chegou um pouco atrasado ao encontro semanal com os amigos, numa cafeteria do bairro de Higienópolis. Quando finalmente entrou no salão, a turma já adoçava a segunda xícara de café e – Lelong percebeu – falavam dele.

Sua esposa explicava que seria muito inconveniente sair à cata de um novo marido, mas não tinha jeito: a fulminante carreira artística de Jacques Lelong inevitavelmente o afastaria dela. Sheilly Kawkhag, amiga de longa data do casal, concordou. Tinha de fonte segura que, faltando dez dias para a estreia, os ingressos já haviam esgotado. O Teatro Folha ficara pequeno para tanta demanda: “Todo mundo da colônia adora ele”, disse.

Jacques Lelong sorriu, lembrando-se da previsão de um astrólogo que consultara há uma década: “O sucesso chegará tarde.” De fato. Fazia três meses que tinha completado 70 anos.

*

Judeu nascido no Líbano durante a ocupação francesa, Lelong morou em Beirute até os 18 anos. Dali foi para a França, e em seguida, para o Brasil. As pessoas que conheceu ao longo de sua vida errante são o prato principal do espetáculo de comédia Beirute, Paris, São Paulo, de sua autoria. Trata-se daqueles shows consagrados por Jerry Seinfeld, em que o comediante fica em pé diante da platéia, sem mais nada a protegê-lo senão o microfone. Homens na força da idade tremem diante de tamanho desafio. Lelong parece ter nascido para isso.

O irmão Ely Tawil conta que desde criança Lelong gostava de contar piada. “Disso e de costurar roupas para boneca”, acrescenta, resumindo em poucas palavras os dois principais talentos do irmão. Como não se ganha a vida com roupas para bonecas, Lelong decidiu virar estilista. Aos dezoito anos, achou que já não tinha mais o que aprender com os costureiros de Beirute e partiu para Paris. Lá, deslumbrou-se com o jazz, com as intermináveis e profundíssimas conversas sobre arte e política – sem as quais a França não seria a França – e com a desinibição das mulheres. “Nenhuma queria se casar e as mais esclarecidas queriam ter amantes. No Líbano as moças ainda se preocupavam com o dote”, relembra ele.

Quando o visto de turista estava prestes a expirar, Lelong riscou no papel um vestido , que despachou pelo correio para o ateliê de Pierre Cardin. Deu certo, e ele foi convidado a fazer parte do corpo de estilistas da maison. Ganhou uma profissão e um novo nome. “O funcionário que foi preencher a minha ficha achou que Isaac Tawil era muito estranho, e sugeriu que eu trocasse por alguma coisa mais sonora.” Jacques, por exemplo. Embalado pela boa solução do nome próprio, decidiu mudar também o sobrenome. Como Tawil significa comprido em árabe, não teve dúvida: le long.

Com emprego, casa e um projeto de família começando a se esboçar – fizera um casamento à la parisiense, sem grandes formalidades –, a vida parecia estar tomando prumo, mas não. Ele credita à herança fenícia a coceira peripatética que, na época, o levou a dizer tchau e partir em nova direção. A família emigrara para São Paulo e o irmão Ely o convidou a vir. Apesar dos dez bons anos em Paris, não pensou duas vezes e se mudou mais uma vez.

Reencontrou mãe, irmãos e muitos amigos de infância. Parecia que todo o seu Líbano tinha emigrado para o Brasil. Nasceram os filhos e, num lance de dados, acertou na mosca: sua jaqueta de pelúcia colorida — especialmente a vermelha — arrasou corações no inverno de 1973. Em pouco tempo, passou a assinar coleções inteiras. A vida não podia ter dado mais certo.

*

São duas da tarde na sala envidraçada da Organização Sionista Internacional de Mulheres, no Pacaembu, entidade apoiadora do espetáculo que cedeu o pequeno auditório para o ensaio geral de Beirute, Paris, São Paulo. Faltam 8 dias para a estreia. Não se sabe ao certo se as mulheres sionistas em questão estavam cientes do teor picante do espetáculo, mas se não estavam, logo ficariam sabendo.

“Fortunée!”, grita Lelong com voz empostada. “Que é?!”, ele mesmo responde, em falsete. “Vem pra cama, que eu quero mostrar uma coisa especial!” Cada vez menos publicável, o diálogo avança até atingir a apoteose, que inclui as palavras “quibe”, “esfiha” e “knafe”. A produtora do espetáculo, Bella Diwan Hakim, aplaude entusiasmada: “Tá ótimo, Jacques!” Ao todo, serão 46 piadas, vinte das quais passaram pelo crivo de Bella, ciosa não em proteger a inocência da plateia mas em eliminar estrangeirismos incompreensíveis – Beirute, Paris, São Paulo foi originalmente escrita em árabe e francês.

Satisfeito com a reação de Bella, e meditando sobre os bons augúrios de sucesso – uma segunda apresentação já havia sido agendada para atender a uma longa lista de espera – Lelong explicou porque não se preocupa com a concorrência: “Os comediantes de hoje querem inovar o tempo todo, e a comédia não é só isso. Mas não é culpa deles, ainda são muito novos.”

Na estreia, Jacques Lelong foi interrompido cinco vezes por aplausos em cena aberta. A piada sobre a velhinha que se candidata a uma vaga no bordel tirou lágrimas (e parte da maquiagem) de uma senhora da plateia. Após o espetáculo, o teatro em peso aguardou na fila para cumprimentar o debutante: “Um sucesso! Um sucesso!”, repetiam. É o caso de saber onde atende o astrólogo.

3.12.09

Enquanto isso...

A série Álbum de Família, da pintora Regina Parra

Um poema do Rafael Mantovani

Ter sete anos, na visão de costureira da Flávia Lobo

Um estadista em forma de músico, ou o livro que fez meu coração bater tum-tum

A salvação dos vegetarianos, ou o gosto de frango que faltava no seu vegetal

Um brechó como nunca jamais em tempo algum você gostou tanto

E a tarde de luxo de Noemi Jaffe

16.11.09

Férias





["Ventania", de Flávia Lobo]

28.10.09

Mama imbatível

Tem umas coisas que toda mulher, na minha família, deve observar. Primeiro: essa mulher trabalha? Ou, mais exatamente, essa mulher se esforça? Para limpar, atender bem, se expressar, narrar repetidas vezes e sem ser maçante cenas familiares? Essa mulher come? Em outras famílias podem até considerar o fato de comer pouco um ponto a favor. Na minha família, pelo contrário: cansei de ouvir piadas de magrelas, comentários sarcásticos sobre roupas sobrando e exclamações de respeito mórbido pelos muito magros da tevê. Bom é ser cheio. Consequentemente, outra virtude dessa mulher é cozinhar bem. Prover. Comida farta, com pouco tempero e pouco sal, e mesmo assim pesada, é o que agrada — salada de tomate com cebola crua e vinagre, bife fino temperado com alho e coentro em grão, sobremesa de creme de leite com gelatina e abacaxi em cubos. O cardápio favorece o que vem a seguir, a análise dos pratos. A cozinheira assiste ao julgamento disfarçando a ansiedade com um pedaço de pão molhado de tomate na boca. A consistência agradou, o alho foi muito, como está a cor? Até os homens têm uma sugestão de como melhorar. Mas há casos, se bem que raros, em que a glória máxima é alcançada por alguma cozinheira: "Ficou igual à receita da bisa". Ohhhh, uma Antunes cora.

23.10.09

Adeus, Cristiano Viana

Mais tarde pode não sobrar espaço para estacionar, porque o asfalto tem uma barriga bem onde ficam as garagens. A senhora que tem a maior marca de enchente na parede costura mal e não tem vergonha disso, entrega o serviço dizendo que "se precisar prega mais dois botões em cima". O arremate nunca aguenta. Só quem confia um blazer a ela é o dono da casa verde, que às vezes me ajuda a catar o lixo que cai da cesta coletiva para evitar que a chuva leve os restos de volta para as casas, mas não evitamos as baratas. Havendo quem goste delas, o controle fica garantido pelas caçadas do Marlon, postado toda tarde no vão entre a igreja e a construção lacrada ao lado. É nesses escombros que os motoristas de vallet deixam os carros no sábado à noite, e foi ali que ouvi falarem que a construção será futuramente uma clínica de mudança de sexo, mas se ninguém fizer nada é capaz que não exista mais cimento para construir coisa alguma, porque a chuva está apertando. Subiu o nível, nem o Marlon está mais na rua.

19.10.09

Tem poder

Os cinco integrantes de banda Jazz&Chuva iam rumo a Parati no Fusca branco de Mané, o baterista, quando alguém gritou do banco de trás que havia uma luz estranha brilhando no mato. Àquela hora da noite e sem um dos faróis dianteiros, foi difícil encontrar um acostamento seguro na Rio-Santos, estrada famosa por suas pistas estreitas e curvas fechadas "que mostram o rabo do carro no retrovisor", mas Mané conseguiu parar. Do lado de fora, acompanharam o momento em que o foco único de luz se multiplicou pela mata e começou a piscar com regularidade. Tiveram medo, mas permaneceram em pé. Tinham certeza de que estavam presenciando o pouso de uma nave extraterrestre.

Não muito longe, no raio de visão do grupo, uma figura alta se destacou sob a luz e começou a caminhar em direção ao asfalto. Outras quatro criaturas idênticas se juntaram à marcha, e depois outras, numa repetição que pareceu aos ocupantes do Fusca, macabra. "O primeiro tinha a cara toda borrada de maquiagem e olhos brancos de vampiro", relembra Betina, "mas o pior era o tamanho: uns três metros", acredita. Para Augusto, guitarra e voz da Jazz&Chuva, a imagem pareceu menos assustadora: "Aqueles caras de perna de pau, vestidos de palhaço, só que com os olhos brilhantes". O flautista Marreco acrescenta que os palhaços eram "transparentes como holografias". No que concordam as testemunhas é a vestimenta das aparições: calças largas com estampa de bolas, peruca laranja e nariz vermelho. Em resumo, palhaços. Gigantes. "Extraterrestres", resume Mané, que se recorda ainda da fuga desesperada da turma que resultou num estranho acidente automobilístico com um caminhão, que teria tombado na pista sem fazer barulho: "Acho que foi uma manobra da nave para obrigar a gente a parar, mas consegui desviar, e a gente só rodou na pista, ninguém bateu a cara no vidro, mas quando olhamos para trás não tinha mais caminhão nenhum, sumiu".

Confrontados inúmeras vezes com a desconfiança alheia, os ex-integrantes da banda aprenderam com o tempo a se preservar do escárnio. Admitem que haviam experimentado (e tragado) maconha naquela noite, mas defendem que um fato não tem nada a ver com o outro. "O dia em que nego enxergar coisa que não existe fumando cigarrinho de artista o preço da erva vai ter que subir, porque tudo que é cego vai querer comprar", ironiza a ex-guitarrista Betina, hoje professora particular de inglês. Na visão "oficial" dos cinco, e escorados no fato amplamente aceito pela comunidade científica de que por mais poderoso que seja o "cigarrinho de artista" suas substâncias ativas são incapazes de produzir a visão de um desembarque massivo de palhaços gigantes, o que presenciaram foi uma manobra alienígena. "Eles devem ter parado na estrada pra fazer xixi", brinca Paulo, que depois de vinte anos abandonou o Cassio 1800 e se apossou do piano de cauda do restaurante Divin'Italia, em Ubatuba. "Nunca mais vi ET, mas adquiri medo de palhaço", confessa.

O episódio ocorreu em novembro de 1983.

*

Vinte e seis anos depois, na cidade de São Paulo, os cinco ex-integrantes da Jazz&Chuva se reúnem no estúdio caseiro de Mané, em Perdizes, para relembrar a história e ouvir, a meu convite, a música "Sangue de ET", que a compositora recifense Lulina acaba de regravar no disco Cristalina.

Ao final da audição, os cinco demonstram alívio. "A gente achava que você ia mostrar um hino evangélico de alguma igreja nova que cultua ETs", gargalha Mané. Com anuência dos amigos, ele diz que não há nada mais preciso acerca do fenômeno que presenciaram do que o refrão de Lunina. "Não sei por que as pessoas insistem em desacreditar a gente. A resposta taí, pronto: a ciência não explica mas sangue de ET tem poder!", diverte-se, apertando o play mais uma vez. Betina se levanta e começa a dançar. "Que graça essa música!", arremata, enquanto acende um Marlboro vermelho, único cigarro que não largou com o passar dos anos.

4.9.09

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Está nas bancas hoje o texto "Calma, monga", onde investigo o paradeiro das jaulas de monga e converso com quem ainda as habita.

Para conhecer o texto de pêlo aparado e visual de gala para a apresentação ao público, leia a revista, que abre seu conteúdo no site. Para os interessados numa monga cabeluda, aqui vai a versão selvagem da matéria:


Calma, Monga!


quarenta anos, o parque de diversões Imperial, de Aparecida do Norte, não estava sozinho no ramo das mulheres-macaco. Concorrendo com ele, outros dois parques de diversão anunciavam a metamorfose de uma moça em primata. A jovem recebia vários nomes. Empresários de variedades pouco imaginativos preferiam o soporífero “Mulher-macaco”. Os dotados de alguma imaginação batizavam suas estrelas de Konga e Tonga. O Imperial sempre foi tradicionalista e jamais se afastou do consagrado Monga, nome de trânsito universal e origem desconhecida.

Na época das Mongas, Kongas e Tongas de antigamente havia várias versões para explicar a transformação da moça. Contava-se que ela era filha do conde Drácula; ou ainda que, graças a poderes telepáticos únicos, ela se transportava a tempos tão remotos que refluía ao tronco comum de todo homo sapiens. Américo Costa, dono do Imperial, preferia uma versão romântica: algo lírico, explicava que, na sua Monga, o “coração da moça bate no peito do macaco”.

Hoje, os concorrentes fecharam as portas e Costa, aos 64 anos, reina absoluto numa esquina movimentada próxima à antiga basílica de Aparecida. À noite, a poucos metros do Imperial, romeiros de todos os cantos do país passeiam pelas ruas apinhadas de camelôs e lojas de artigos religiosos que vendem ímãs de geladeira com a imagem de Nossa Senhora por 1 real ou conjuntos de três chaveiros com a foto do papa por 2,50. O ingresso da mulher-macaco custa 3 reais. “É o máximo que o romeiro pode pagar”, diz o empresário.

Apesar da aparência jovial de seu dono, moldada à base de calças jeans, camiseta pólo e sapatênis, o Imperial é uma relíquia. Mongas praticamente desapareceram dos parques de diversão. No passado, eram tão ubíquas quanto o carro bate-bate e o tobogã. Costa é um dos últimos a preservá-la como espetáculo fixo – mulheres-macaco ainda prestam seus serviços ao público, mas quase sempre em “jaulas itinerantes”, nome dado aos ônibus e carretas que cruzam o país levando números de variedades às pequenas cidades.

O PEQUENO ambiente de quatro metros quadrados é escuro, mas não completamente. A luz que escorre pela porta entreaberta é suficiente para iluminar as paredes, nas quais se vislumbram cenas de uma paisagem noturna. Há uma imensa coruja pousada numa árvore seca. Um morcego voa em direção à lua cheia. Rodrigo, que aos sete anos não pode entrar sozinho, se posiciona com a mãe perto de um pequeno grupo de adolescentes. De pé, todos olham para uma minguada cortina de veludo vermelho, atrás da qual, presume-se, está o palco.

“Alguém mais?”, insiste Costa do lado de fora. Ninguém mais. O empresário entra na sala e fecha a porta. Dá dois passos em direção à cortina vermelha e, com drama, pergunta: “Está pronta?” O silêncio sugere que sim. Ele então abre o pano. Rodrigo solta um gemidinho agudo.

Uma luz cai no centro do palco e ilumina uma jaula exígua, dentro da qual está uma moça de maiô. Sua aparência é perfeitamente humana. “Cumprimente a platéia, Monga”, ordena Costa cuja voz grave dispensa microfones. Com uma expressão entre o tédio e o constrangimento, ela abre a porta da jaula e faz uma pequena mesura para o público. Tão emburrada como veio, volta para dentro da jaula e estaciona. Monga não parece ser uma mulher feliz. Costa começa a contar o que a trouxe ali. “Um dia a moça dormiu profundamente” – e com essa frase, ele próprio fecha os olhos – “e sonhou que conhecia um macaco pelo qual se apaixonava.” Ninguém contesta a premissa, e Costa segue adiante, evocando as savanas floridas e as cachoeiras indomáveis pelas quais o casal caminhou durante o idílio de amor. De súbito, ele abre os olhos e fixa intensamente a mulher, que permanece impassível: “E então, ela percebeu que para continuar vivendo essa paixão ela teria que se transformar num macaco.” As últimas palavras são ditas numa voz dramática e tremulante. Diante da revelação assombrosa, a moça começa a perder os contornos e de sua pele até então glabra brotam pelos ásperos. “Ela virou um macaco!”, geme o pequeno Rodrigo, olhos pregados na mãe e cara de quem vai começar a chorar. O resto da platéia continua firme.

Costa não dá atenção às manifestações de Rodrigo. Com voz firme, intima: “Desperte, Monga!” O macaco agarra as barras da jaula, se debate, já sem domínio de si mesmo. A porta, sem tranca nem cadeado, é aberta com violência e Monga escapa. “Calma!”, grita Costa, com desespero. “Ahhhh!”, devolve a platéia. “Mãe!”, berra Rodrigo. Todos correm para a saída e em menos de dez segundos estão do lado de fora. Costa é o único a não correr. “Durma novamente, Monga”, exige com autoridade, mas ninguém está mais ali para ouvi-lo.

*

A 140 quilômetros de Aparecida do Norte, na cidade de São Paulo, três meninos um pouco mais velhos que Rodrigo esperam na fila para ver outra Monga. Estão preocupados com o suor, que começa a apagar os Passaportes da Alegria, carimbados pela manhã nos seus pulsos. “A gente chegou às nove”, explica Tiago, que saiu de Campinas para visitar o Playcenter pela primeira vez. Os alto-falantes do “Mistério da Monga” anunciam as normas de segurança: não é permitido filmar ou fotografar, tocar nos personagens e correr. “Se não pode correr é porque não dá medo”, se decepciona Tiago.

Ao passarem pela porta, entram num ambiente refrigerado, onde são recebidos por um ator vestido com a roupa dos guias de safári africanos. Ele lhes informa que ainda é possível desistir: “Quem estiver com medo pode esperar ali perto da porta.” Como ninguém desiste, o homem, falando ao microfone, avisa aos cardíacos que porventura estejam na platéia que o espetáculo tem cenas “de impacto”. Explica então o que se verá: um vídeo de dez minutos repleto de perseguições e closes sangrentos que conta a epopéia de Julia Pastrana, uma cientista que, em expedição ao Congo, foi mordida por um feroz macaco da espécie “monga”. O incidente alterou o seu código genético e a transformou numa monga. Na sala ao lado, o público poderá ver a jovem cientista receber a dose de um antídoto recém descoberto. “Lembrando que não é permitido correr no interior do laboratório”, sublinha o guia.

DE FATO, na sala contígua, está o macaco. De estatura respeitável e pelagem longa e sedosa, mais se assemelha ao lendário Pé Grande, o Abominável Homem das Neves. “Fiquem juntos, a experiência é perigosa!”, adverte o rapaz. De uma mesa de controle com botões coloridos, ele direciona uma enorme injeção para o braço direito do monstro. O líquido verde-fluorescente entra na corrente sanguínea e, pouco a pouco, a besta assustadora se transforma numa jovem magra e de pele muito alva. Julia Pastrana veste short cáqui e camisa branca. Seus braços estão acorrentados. Infelizmente, o retorno dela ao mundo dos sapiens é brevíssimo, pois o antídoto não é bom e a cura falhou. Aos poucos, Pastrana retoma a forma de monga, um fato que deixa o guia bastante assustado. “O animal é perigoso e pode quebrar as correntes!”, ele se esgoela, mas sua voz é abafada pelos urros terríveis que saem da jaula. Mudar de espécie a cada minuto parece ser extremamente doloroso, e Pastrana/monga está fora de si. “Não! Não! O que aconteceu? Não tenho mais o controle da máquina!”, desespera-se o guia. O efeito é imediato: num empurra-empurra de multidão acuada, a platéia corre em direção à saída e, aos gritos, quase atropela Tiago, que por causa da baixa estatura não alcançou a visão do palco. Mesmo sem ter visto a fera, ele não passa recibo: “Monga é pra criancinha...”

JULIA Pastrana existiu. Nascida no México em meados do século XIX, sofria de hipertricose, doença genética extremamente rara que se caracteriza pelo aparecimento de pelos longos e abundantes pelo corpo. Era, portanto, uma espécie de ur-Monga, e como sua contrafação brasileira, acabou no circo. Circulando pelos picadeiros ambulantes do país, atraiu a atenção de Theodor Lent, empresário de entretenimentos mambembes. Lent percebeu que Pastrana era igual à moeda sonante, e a pediu em casamento – o maxilar proeminente e os fios lanuginosos que brotavam das maçãs do rosto, do queixo e das sobrancelhas não eram razão suficiente para impedir um bom investimento. Ele alçou a esposa ao estrelato internacional e a levou a dançar e cantar em palcos europeus (ela era mezzo-soprano). A vida de Pastrana terminou bruscamente aos 26 anos, em Moscou, de complicações pós-parto, depois de dar a luz a um menino que herdara sua hipertricose e que não viveu mais de três dias. Empreendedor, Lent não se deixou abater. Embalsamou mulher e filho, e seguiu cobrando entrada a quem quisesse ver sua família disposta numa vitrine. Casou-se mais tarde com uma mulher que sofria do mesmo mal de Pastrana – a quem deu o nome artístico de Zenora Pastrana – e morreu louco. Julia Pastrana e o bebê estão hoje recolhidos a um instituto de medicina forense em Oslo, Noruega.

Ingrid Aquino, a atriz que há mais de um ano interpreta Julia Pastrana no Playcenter, sabe pouco sobre a breve vida da mexicana. Para fazer o papel, passou algum tempo observando primatas. “Tem gente que acha que eu exagero, mas na hora da transformação, que eu imagino que deve ser dolorosa, fico ofegante feito um macaco”, explica. Ingrid tem vinte anos e é muito pragmática. Revelada no papel de Possuída, personagem do Castelo dos Horrores do Playcenter, foi contratada em 2008 para ficar à disposição da Indiana Mystery, a produtora que teve a idéia de ressuscitar a Monga e é responsável pela operação do espetáculo. O papel “estava guardado para mim, quem me disse foi o Baiano”, conta ela, referindo-se a uma entidade com quem se encontra em sessões espíritas. Ingrid sempre se dedicou ao entretenimento em parques de diversão e gosta do que faz. Embora sonhe em fazer novelas, no momento não abre mão do salário de mil reais por seis horas de trabalho em regime CLT: “Só troco o certo pelo mais certo ainda.”

*

A ATUAL Monga custou 1 milhão de reais ao Playcenter. Veio substituir uma versão mais modesta do espetáculo que, no passado, era operada em parceria com um pequeno empresário de espetáculos itinerantes, Romeu Del Duque. Em 1973, Del Duque instalou sua Monga ao lado da roda gigante e durante anos reinou absoluto. Hoje, afastado há mais de duas décadas do Playcenter, ainda se sente dono da atração. Tradicionalista, não vê com bons olhos tanta novidade: “Esse negócio de shorts e camiseta, de mudar o macaco... O pessoal que está aí agora não sabe nada de Monga”, afirma desgostoso. Tem autoridade para se manifestar, pois foi empresário de uma das mais bem sucedidas Mongas do Brasil.

Em 1991, Beto Carrero andava atrás de mão de obra especializada. Pegou o telefone e lançou de chofre: “Preciso de uma Monga para trabalhar no parque. Você aceitaria se mudar para Santa Catarina?”. Dirce Fátima de Arruda não podia acreditar. Mais do que uma oferta de emprego em boa hora, o convite era a coroação de uma carreira. “Mas eu não podia criar as minhas filhas naquele frio. Então ele me pediu para ir treinar Mongas pra ele”, conta ela.

Ao chegar lá, Dirce percebeu que, embora uma ou outra aspirante tivesse algum talento, nenhuma delas estava pronta. Concentrou a atenção no quadril. Com 12 anos de jaula, Dirce aprendera tudo o que sabia com suas duas musas: Rita Cadilac e Cindy Lauper. “A minha Monga sempre foi dançante”, explica. Apresentava-se em trajes ousados: biquíni asa-delta, tops verdes com textura de cobra, meias-calças roxas e botas de salto. Sua Monga era picante, mas não imprópria para menores. Ao tomar conhecimento que uma Monga estava se apresentando de topless numa cidade do interior de São Paulo, Dirce ficou horrorizada. “Monga não tem nada a ver com vulgaridade”, exclamou.

DE 1979 a 1991 Dirce viveu na estrada, dentro de um ônibus adaptado que servia ao mesmo tempo de casa e palco. Cozinhava para os três homens com quem convivia: Romeu Del Duque, o pioneiro do Playcenter, dono do negócio; Cláudio Antônio de Arruda, irmão de Dirce, a quem cabia o papel de macaco, ou, no jargão da indústria, de “segundo”; e Céu Azul, um ex-palhaço de circo que fazia a “porta”, aquele que se encarrega de recolher os ingressos na entrada. Devido ao caráter picante da Monga de Dirce, vez por outra Céu Azul foi obrigado a superar sua estatura mirrada para fazer as vezes de guarda-costas. “O público me reconhecia na rua, diziam ‘Monga! Monga!’, tinha uns que queriam se engraçar”, relembra a estrela. Nem quando engravidou ela pensou em parar: “A platéia gritava ‘Vai nascer macaquinho!’” Parecia ter nascido para aquilo. “Fui a melhor Monga do Brasil”, diz.

Se não o melhor do Brasil, mas pelo menos “um bom macaco em cena”, como assegura o ex-patrão Del Duque, Cláudio não fazia feio no papel da versão primata de Monga. Sua função era passar a primeira parte do espetáculo escondido numa cabine lateral do palco, propositadamente fora do raio de visão da platéia. Dentro da fantasia de macaco peludo, esperava a hora precisa de se exibir. “Os institutos com seus grandes e famosos cientistas afirmam: o homem é o grande remanescente dos monstros. Profundamente adormecida, sem saber o que está se passando, ela começa a se transformar. Notem!”, dizia Del Duque ao microfone, operando as teclas de comando da mesa de luz que davam curso ao jogo de espelhos. O truque era simples, mas eficiente. As luzes que incidiam sobre o interior da jaula de Dirce eram reduzidas até se apagarem, enquanto Cláudio, no seu canto escuro, era progressivamente iluminado. Refletidos no cristal translúcido através do qual a platéia via a cena, a imagem dos irmãos começava a se mesclar. “Notem o que ocorreu com a jovem! Dos pés à cabeça, totalmente transformada nesse macaco, nesse gorila...” Banhado pela luz forte dos refletores e suando dentro da fantasia de lã sintética, Cláudio esperava pelo black-out total da jaula de Dirce. Agora, a platéia tinha diante de si apenas o macaco. Era a vez dele: “Observem que ela agora se movimenta e se bate de um lado para o outro...” Cláudio se agitava e se debatia. “Vamos, fera, calma. Vamos, calma, pare!” Cláudio suava abundantemente mas não parava. Com a máscara de fibra de vidro escorregando do rosto, ele começava a urrar. “Não, Monga! Não faça isso, pare, pare!”

Era o momento de arrebentar a porta da jaula e sair. Luzes estroboscópicas impediam que a platéia conseguisse adivinhar o paradeiro do macaco; ele surgia de supetão a um palmo do rosto das pessoas, urrando como uma besta terrível. Era recebido com gritos e – mais frequentemente do que gostaria – com murros: “Tinha gente que ia só pra bater no macaco. Eu não podia revidar”, lembra-se. Sua fama de bom de palco não era imerecida, pois, segundo Del Duque, possuía a principal qualidade de um segundo: “Ele sabia aguentar o tranco.”

*

POR volta de 1990, o ônibus estacionou em São Paulo e nunca mais voltou a rodar. Del Duque comprou uma chácara no interior e vive bem com o dinheiro que ganha no parque de diversões Beija-Flor, que montou à beira da Marginal Tietê. Cláudio, que ainda trabalha com ele, ajuda na manutenção e assume o parque quando o patrão está viajando. Nenhum dos dois sente falta da Monga.

Dirce sente. Depois de passar três meses em Santa Catarina dando consultoria para Beto Carreiro, ela se mudou com as filhas para o interior de São Paulo e ainda acha que existe um futuro para a mulher-macaco. “Eu sugeri pro dono desse parque que chegou aqui em Ourinhos que ele abrisse uma jaula da Monga. Ele não deu resposta, mas eu estou esperando.”

3.9.09

Vergonha

Teve o episódio da pastilha Garoto que eu chupava e saiu voando da minha boca quando eu tropecei na escada e fez com que uma incauta confundisse as coisas e gritasse alto que "o dente dela caiu!". Mas não foi necessariamente pior do que atravessar a rua com a saia presa na calcinha e constatar que alguma coisa estava errada porque a obra da Consolação tinha feito silêncio quando eu passei, o que afinal me lembrou uma passagem bíblica que aprendi num filme da Record sobre a história de Jesus, quando uma mulher muito honrada prova que o seu povo é sério saindo nua a cavalo e ouvindo como resposta apenas portas e janelas se fechando em sinal de pudor. Daí pra lembrança das páginas vilipendiadas do meu diário de 1992 foi um pulo, porque ao contrário daquele povo honesto, meu irmão mais velho pegou minhas vergonhas e estendeu no varal, junto com a Folha de S.Paulo que tinha tomado chuva e xixi de cachorro na garagem e secava no sol do domingo em família pra depois todo mundo ler com rugas. Eu dizia: "Por que será que ninguém gosta de mim?", e era sincera quando terminava a frase com a letra redonda e magoada concluindo que ninguém imaginava que eu também gostava de alguém, mas graças à bondade da minha mãe, que recolheu as folhas do diário junto com o jornal, não se registrou em nenhum livro sagrado minha adoração secreta pelo faixa preta de olhos azuis e hálito estranho que tinha me ensinado as primeiras defesas do tae-kwon-do. (Anos depois, durante uma sequência de chutes, ele acenou para que eu aguardasse antes do terceiro golpe e disse baixinho no meu ouvido: "Seu uniforme está sujo", e era de sangue.)

25.8.09

Inútil tatuagem

A maioria das pessoas entra numa loja de tatuagem com um motivo, como se fosse preciso justificar o crime: o Bob Marley porque a pessoa gosta de Jah, uma estrela para o nascimento da primeira filha, um dragão verde em homenagem ao pai. Mas eu não tinha uma razão quando fiz a minha.
Na primeira entrevista levei uma gravura japonesa com linhas mais ou menos sinuosas, que imaginei ficariam delicadas no antebraço. Desisti quando o tatuador sugeriu que as linhas pretas dariam um ar dark a minha anatomia. Não podia ser mais distante do que eu pretendia, mesmo que eu não pretendesse nada.
Na segunda entrevista mostrei interesse pelas flores que ele havia tatuado e que eu vi enquanto folheava o álbum de modelos e fotos. "Parecem legumes", elogiei. Ele então mostrou a flor que tinha feito especialmente para a mulher, no dia do casamento. Era uma rosa gorducha que se misturava a uma bromélia em algum ponto, produzindo o efeito carnívoro de um coração humano verdadeiro. Gostei. Na verdade, fiquei fascinada. Não se parecia com nada, não lembrava ninguém. A tatuagem era linda. Pedi que ele trocasse a ideia dos galhos retorcidos e secos da gravura japonesa por uma flor "daquelas".
No dia em que vi as rosas que afinal vieram parar no meu braço esquerdo, elas eram traços de lápis sem cor num papel vegetal. Em tatuagem, não se deve imaginar que o que está desenhado ficará exatamente assim na pele, portanto quando se aprova um desenho o que se está atestando na realidade é a sua fé na capacidade do artista.
Aprovado, marcamos a sessão para o fim da tarde de uma sexta-feira. No dia, o último em branco do membro, cheguei a ficar mais de uma hora diante do espelho tentando imaginar por que faria aquilo. E se ficaria bom. E como envelhecer tatuada e com dignidade. E se me arrependesse? Em meio à seara de dúvidas em que me encontrava justamente por estar prestes a acrescentar algo definitivo a minha imagem, foi ficando claro que eu não tinha um motivo. O que rosas queriam dizer para mim? Nada. O que flores diziam sobre a minha personalidade, sobre a minha vida? Nada. E, afinal, o que uma tatuagem revelava da maneira como eu vivia e pensava, ou pelo menos tinha vivido e pensado até os 28 anos? Pouco.
Até o dia em que fui ao tatuador com a gravura na mão, eu jamais havia pensado em me tatuar. Achava que nunca faria. Achava feio. A mudança tinha ocorrido nas três semanas anteriores, depois de uma conversa rápida com uma amiga em que ela citava uma tatuagem de árvore no antebraço de alguém. De modo que não foi por vontade ou motivo, mas por não conseguir pensar em outra coisa que tatuei no braço duas rosas parecidas com legumes.
No final das contas, me parece que a falta de qualquer significado é o melhor da tatuagem, que fica ali eternamente lembrando uma certa displicência com a eternidade.

3.8.09

Ligações perigosas: Maria Antonieta e alimentação adequada

Uma crise de enxaqueca pode ser descrita como uma queda. O estômago estaciona e se contrai, como num declive de montanha-russa; a cabeça rouba a função de bombeador de sangue do coração e os membros passam a formigar; você se desequilibra; só pára quando a dor estaciona.

Em linhas gerais, é o que Aline de Oliveira descreve ao dr. Guilherme Eduardo Rodrigues numa sala do pequeno castelo onde o médico vive, em São Paulo. Quando a paciente relata ter perdido uma oportunidade de emprego por conta de uma crise de enxaqueca no dia da entrevista, o terapeuta quebra o silêncio: "Essa dor é sintoma de uma doença maior. É isso, e não a enxaqueca, que vamos tratar".

A saleta onde doutor Guilherme aplica massagens e prescreve dietas curativas foi escolhida para os atendimentos por propiciar uma vista panorâmica do jardim. Ali estão preservadas espécies vegetais raras. O palácio, afastado do centro e de acesso complicado mesmo de carro, foi alugado por um preço alto: "Quando os corretores me mostraram a casa eu soube que era aqui, nem pensei no aluguel". E também não pensou em modificar uma estranha cláusula contratual que previa a visita do proprietário sempre que este desejasse.

O visitante bissexto e dono da propriedade é o biólogo Rafael Augusto Portentori, um dos fundadores do Jardim Botânico do Butantã, que abriu as portas em 1948. Aos 96 anos, o aposentado vive atualmente em uma casa de repouso da comunidade italiana, para onde se mudou quando sentiu "que não podia mais ficar sozinho". Aproveita a tranquilidade para finalizar a obra da vida inteira, um livro sobre o aracuê roxo, uma das árvores plantadas no jardim da casa alugada por Guilherme. Sobre o locatário, diz apenas que é "um rapaz inteligente".

Deitada numa maca, Aline reclama quando dr. Guilherme encosta um bastão metálico em forma de caneta em sua barriga: "Tá frio", resmunga. O terapeuta explica então que o cristal incrustado na ponta do bastão irá ativar o chacra do umbigo, que no caso de Aline está em petição de miséria: "Você está sem energia vital, temos começar do começo antes de tratar qualquer coisa", explica, enquanto circunscreve círculos sobre a pele da moça.

Guilherme não é médico. O título de doutor vem exclusivamente do uso: "Eu explico para os meus clientes que não precisam me chamar assim, mas eles insistem, e não fico corrigindo toda hora para não ficar como o antipático", explica humildemente o autoentitulado "terapeuta". A trajetória intelectual de Guilherme é atípica. Prescindindo de cursinho pré-vestibular e energéticos para ficar acordado até tarde, ingressou na faculdade de medicina da USP, uma das mais concorridas do país, em 1984, "com certa tranquilidade". Achou o curso fácil até o terceiro ano, quando foi persuadido por um colega de quarto de que a verdadeira cura estava no alimento. Eram as primeiras notícias da macrobiótica: "Eu já estava descrente do modelo Maria Antonieta da medicina ocidental, que separa corpo e cabeça, e quando percebi que havia outra maneira não só de pensar, mas de compreender o ser humano, senti que tinha encontrado um caminho". Numa tarde quente de 1989, trancou a matrícula e foi ao cinema. Estava passando "Ligações perigosas", até hoje uma de suas fitas preferidas: "O filme mostra bem a natureza perversa do ser humano".

Seis meses depois da primeira sessão, Aline está visivelmente mais magra. "Perdi pelo menos oito quilos", calcula, explicando que a dieta prescrita se baseava em alimentos crus. A alimentação nada tem de macrobiótica, filosofia que Guilherme abandonou para fundar sua própria terapêutica, a "alimentação adequada". Segundo explica, trata-se de prescrever alimentos próprios para determinados estilos de vida. Como o método leva em conta os alimentos tal como são encontrados na natureza, "o cozimento poderia alterar as propriedades pelas quais estão sendo receitados, de modo o ideal é evitar qualquer alteração físco-química nos vegetais".

Enquanto espera na sala adornada com vitrais coloridos e uma mesa de centro de bambu, Aline conta que a rigidez foi a grande aliada no processo de desintoxicação por que passou nos últimos meses: "A coisa que mais me dava vontade, no começo, era comer carne. Depois, como eu não fraquejei, meu corpo ficou mais limpo, e aí eu só tinha vontade de coisas mais puras, como pão. Hoje, só morro por um creme de abóbora, que eu sempre adorei". Como além de ligar o fogo, Aline teria teria também que acionar o liquidificador, o que implicaria num processamento dos legumes e, consequentemente, numa (proibidíssima) intervenção físico-química, a sopa é um pecado que Aline prefere manter longe: "Só cheguei até aqui com muita força de vontade, não volto atrás", afirma categoricamente.

Quando pergunto se as enxaquecas melhoraram, no entanto, Aline demonstra insegurança. "Vim aqui hoje para entender por que tudo melhorou menos a dor de cabeça." Alguns minutos depois, repete a dúvida para o próprio doutor Guilherme, que responde com uma espécie de parábola. "Na noite retrasada amarrei os pés do meu filho adolescente numa corda e o deixei suspenso, de cabeça pra baixo, durante três horas. No começo ele gritou de medo e pediu para descer, mas só desci a corda quando percebi que ele estava calmo. E por que fiz isso com ele? Quando estamos nos debatendo em questões, duvidando do que nos faz bem, é sinal de que o nosso cérebro ainda não está recebendo a quantidade certa de sangue e oxigênio para pensar corretamente. Naquela situação, o cérebro do meu filho estava precisando de irrigação. De cabeça para baixo, foi obrigado a pensar. Não havia outra opção, os membros e o tronco não podiam fazer nada, só a cabeça podia funcionar. E quando você decide se inquietar porque o seu corpo ainda não se livrou de uma anomalia que o acompanha desde que você nasceu, então eu vejo claramente que o seu cérebro ainda não está totalmente limpo e oxigenado. São oito meses de alimentação adequada contra vinte e dois anos de maus hábitos. Essa é a maneira sadia de pensar. E foi isso o que meu filho foi obrigado a experimentar naquela noite. Depois veio me agradecer, disse: 'Pai, você me ajudou a ficar calmo'. É o mesmo que você deve fazer, Aline. Não se debater em questões, mas ficar firme e calma".

Ao final da sessão, enquanto preenche o cheque de 450 reais pela consulta, Aline é interrompida por um estrondo. Um vira-lata cor de caramelo entra porta a dentro, farejando e latindo animadamente. "Desculpe, ele se soltou", disse Adriano, o filho adolescente de Guilherme, que como o cão também fora amarrado ao pé de aracuê roxo. Mais tarde, Aline confessaria ter ficado horrorizada com as marcas da corda nos calcanhares de Adriano: "Se eu fosse esse moleque sumia de lá".

Perguntada se era o que pretendia fazer, diz apenas que "a relação de pai e filho é totalmente diferente da relação entre médico e paciente". Mas logo corrige: "Entre terapeuta e cliente".

[Resolvi brincar com um formato que me agrada profundamente, que é o do texto jornalístico. Recontei aqui a história do post anterior em forma de matéria, o que me levou a ter que acrescentar dados jamais acontecidos para que ficasse com mais aparência de "verdade". Ironicamente, o texto com ares de ficção, o do post anteior, é o verdadeiro, enquanto que este, em forma de matéria, é quase totalmente fictício. Não é assim nenhum documentário do Eduardo Coutinho no quesito "adivinha qual é o limite do documental", mas achei que a brincadeira até que ficou bem honestinha.]

31.7.09

Banana


Uma crise de enxaqueca pode ser descrita como uma queda. O estômago estaciona e se contrai, como num declive de montanha-russa; a cabeça rouba a função de bombeador de sangue do coração e os membros passam a formigar; você se desequilibra; só para quando a dor estaciona. A comparação e as pausas dramáticas entre cada frase não impressionaram dr. Guilherme. Não anotou nada e, ao final da minha exposição, decretou o fim daquele sofrimento: "A enxaqueca não existe. Ela é o sintoma de uma doença maior, e é nela que vamos dar um fim".

Agradeci, surpresa. Não o chamei de doutor por medo de insultá-lo. Alguns minutos antes, ele me dissera do desprezo que sentia pelo pensamento ocidental e suas instituições. Talvez por isso não tivesse se formado em medicina, o título viera com o uso.

Ele falava com propriedade sobre qualquer doença. Ao renunciar à macrobiótica, havia fundado um método novo, ainda sem nome, que servia para todos os fins. "Não é naturismo porque não tem a ver com ficar nu, e não é naturalismo porque não acredito na filosofia. Vamos chamar de alimentação adequada, por enquanto", e prescreveu minha nova dieta.

Saí com a sensação de que não era preciso temer novos ataques de dor. Alguém entendia e sabia o que fazer comigo. Bastava que eu ingerisse diariamente doses cavalares de três tipos de folhas classificadas pela cor, dois tipos de raízes, vinagre de arroz misturado com água e mel e, além disso, que cumprisse rigorosamente a rotina de exercícios de respiração. "Conforme você for se desintoxicando, você vai pensar mais claramente e seu cérebro vai conseguir distinguir melhor o que é útil para o seu corpo e o que não é", ele havia dito. E era com isso que eu aplacava, nos primeiros dias, a vontade de comer carne. Desejo que depois se tornou mais fraco, dando lugar à vontade de pão. Com o corpo em franco processo de desintoxicação, eu já me sentia mais capaz de compreender a extensão da máxima anotada no pé da folha de prescrição: "Toxina chama toxina". Sem elas, meus desejos estavam quase puros. Aos sete meses de tratamento, tudo com que eu sonhava era uma sopa. Que, sendo cozinhada, não podia.

Com o tempo, eu já não temia os velhos pratos e desejos mundanos. Com estofo metafísico suficiente para enfrentar a rotina, aplacava inquietudes do apetite com cálculos mentais: "Desejo por chocolate manifesta carência afetiva. Ao invés de comer um Laka, vou conversar com o namorado", ou então eu transformava um sorvete de creme em penitência, pois isso sim era perimitido: "Já tentei de tudo para não pensar mais nesse sorvete, então vou ceder ao desejo e observar o mal que ele faz ao corpo, e assim associar a memória do sorvete ao mal-estar causado depois".

Roupas de criança guardadas no armário como memória afetiva começavam a servir novamente. As bochechas se tornaram côncavas. E com muito esforço mental, eu tentava acreditar que a magreza me caía bem. As respirações também surtiram efeito: eu de fato começava o dia mais animada. Mas a verdade é que um ponto não havia se modificado. Eu continuava tendo crises de enxaqueca.

Mas se eu estava fazendo tudo certo, por que isso acontecia?

Expliquei o problema a dr. Guilherme num dia frio. Ele olhou para o jardim de sua casa e apontou um pinheiro solitário que ficava no centro do terreno: "Está vendo essa árvore?". Eu via em parte, era muito alta. "Na noite retrasada amarrei os pés do meu filho adolescente numa corda e o deixei suspenso, de cabeça pra baixo, durante três horas. No começo ele gritou de medo e pediu para descer, minha mulher ameaçou chamar a polícia. Mas só quando percebi que ele estava calmo é que desci a corda. Quando estamos nos debatendo em questões, duvidando do que nos faz bem, é sinal de que o nosso cérebro ainda não está recebendo a quantidade certa de sangue e oxigênio para pensar corretamente. Quando o amarrei, o cérebro dele foi obrigado a pensar. Depois veio me agradecer, disse: 'Pai, você me ajudou a ficar calmo'. É o mesmo que você deve fazer, Beatriz. Não se debater em questões, mas ficar firme e calma".

A retidão do meu caminho era desanimadora. Eu olhava para a frente e via a quantidade de salada crua e mel e gengibre e carne de soja que ainda enfrentaria até o dia em que não tivesse mais dor de cabeça. Parecia distante. Sabia que quando atingisse o ponto desejado teria de me manter na mesa dieta, para que nenhuma toxina chamasse outra toxina e botasse tudo a perder. No final, eu me transformaria em alguém parecido com o dr. Guilherme, para quem o natural do ser humano é ter certeza. Pois eu tinha certeza de que precisava comer carne, e não era preciso que ninguém me pendurasse numa árvore para perceber que isso não ia acabar comigo.

Antes de me despedir definitivamente, porém, pedi para conhecer o filho do dr. Guilherme, que fingi admirar pela história do pinheiro assim que fomos apresentados. Alto, magro e muito branco, ele me pareceu doente. Mas educado: "Não quer almoçar com a gente? Hoje vai ter banana", convidou. Recusei, mas não pude deixar de pensar que o garoto era assim dócil não porque sua dieta fosse "doce", como a doutrina do pai certamente rezaria, mas pela desnutrição. Aprofundei a certeza de que manter o tratamento com Dr. Guilherme seria loucura. Em pouco tempo eu me transformaria em algo sem capacidade de reação como o banana do filho dele. Saí imaginando a cena dos pés amarrados.
 

17.7.09

Resolv

Estávamos deitados de barriga para cima, a janela aberta e um calor que era mais do exercício recente que do tempo. Era um cenário com jeito de quarto da mãe, que inspirava algo familiar, uma colcha bordada e velha, uma tevê ligada e velha, um carpete marrom, madeira escura por todo o quarto. Ele me disse que não sabia como tirar aquela mancha do lençol, Não sai com sabão, tem que pôr Resolv, respondi. Já estava endurecendo, tinha que derreter a mancha e só aí lavar. Como tinha sido aquilo, perguntei, e ele apontou pra mancha: Não lembra? Parecia vagamente familiar, mas não, não lembrava. O seu dedão, o chute que você deu na parede dormindo, ele disse. A bica, não lembra? Sim, eu tinha chutado a parede durante a noite, sonhando com bolas de futebol. O dedo devia ter sangrado enquanto eu dormia. Ele ria da minha memória fraca, e vi um dente escuro pela primeira no lado esquerdo do sorriso dele. Nunca tinha reparado. Amarelo tendendo para o verde, só que cinza. Devia ser de cigarro. Anos marinando o esmalte, a mancha não vai sair, lamentei.

16.7.09

Convidada surpresa

Picote atravessa a sala reclamando. Como mia alto, a gata da vizinha que me adotou para lanches rápidos nas noites em que não tem vontade de ficar em casa. Comprei Whiskas mole para recebê-la, e hoje ela estreou o saquinho novo. Está lá, entre as minhas plantas, com a cabeça enfiada na panelinha que dei de presente. Está frio, espero que a pizza chegue logo. Pra mim não tem melhor ração mole que catupiry.

14.7.09

Ele

Ah, sim, ele disse, você vai dançar comigo. Olha, nada contra caubóis, entende?, me peguei falando, acuada, mas eu não estou interessada. Ele usava um chapéu bastante grande e como eu também sou grande, a aba bateu na minha testa: Desculpa, ele disse enquanto me apertava pela cintura, vamos dançar. Rodopiei um pouco, desajeitada e com vontade de rir. Sabia que devia reagir e achar um absurdo, como de fato achei, mas ao mesmo tempo ele parecia invencível, e não estava fazendo nada de mau, então me larguei, só um pouquinho insultada. Eu tenho namorado, ele está ali, ó, eu tentei apontar na multidão, mas o caubói não escutou. Quando abriu a boca, senti o hálito de cerveja: Como é seu nome? Meu namorado está ali, ó, apontei, e eu vou lá falar com ele, ok? Ou esse caipira imenso acha que eu estou sozinha e largada no baile? Não senhor, eu tenho namorado. Senti confiança: Me solta, por favor, meu namorado está ali, avisei. Como é seu nome, gata?, ele continuou. É Beatriz, respondi sei lá por quê. Prazer, ele me apertou mais: Me chamo Nando. "Nando é foda", pensei, "só quem tem 15 anos chama assim", conjecturei, buscando o namorado para me salvar, que estava logo ali: Chuuuupa, pó de arroz!, ele dizia para uma rodinha de meninos rindo, agora é timã-oo!, arrematou, enquanto eu rodava no salão com o Nando. Cê gosta de quê, o caubói perguntou. Eu gosto do meu namorado, e apontei. Não era bem verdade, mas achei que podia assustar o Nando: Aquele com o chapéu de coringa? Pois é, esqueci de mencionar. Em dias de jogo o meu namorado usava um chapéu com guizos na ponta. O outro, menti. Pô, aquele é o meu primo, disse o Nando insultado. Morri.

6.7.09

Corinthians x Realidade

Nas semanas em que o Corinthians ganha, a produção em São Paulo sobe 12,3 por cento. Nas semanas em que o Corinthians perde, o número de acidentes de trabalho aumenta 15,3 por cento. O primeiro torcedor a invadir um campo de futebol foi um corinthiano, no Pacaembu. Nesse mesmo estádio já morreram vários deles. Só em São Paulo, existem mais de 200 clubes de várzea chamados Corinthians. O Corinthians é um time que consegue levar um cego ao campo de futebol. É também o time que consegue fazer um padre mudar o nome de uma criança na hora do batizado. O Corinthians é um time que não ganha um campeonato há mais de 12 anos — mesmo assim é o único time que consegue lotar o estádio. A isto se chama religião.

[Trecho da matéria "Corinthians eu te amo", de Antônio Euclides Teixeira / revista Realidade / julho de 1967]